domingo, 18 de junho de 2017

Poema para seguir em frente.


Eu:
sorridente, na pose, disfarço o abalo
performo, atuo, faço cena, não calo
sigo o fluxo, preencho, formulo
repito palavras, transbordo, me anulo

tento fingir, distrair minha mente
perco a noção, sou inconsequente
resisto, eu fujo e tento esquecer
por saber que não posso, só sei te querer.

Nós:
no ruído entre brincadeira e verdade
na vibração silenciosa da vaidade
no remix de muitas identidades
no intervalo entre egoísmo e liberdade

no atrito dos dedos na corda do violão
no contra-tempo de cada te(n)são
na nota tocada sem amplificação
somente um eco da imaginação.

terça-feira, 2 de maio de 2017

FAXINA

Lavei seu cheiro do meu travesseiro
seu prazer dos meus lençõis
e algumas gotas de desejo que escorreram pelo chão.

Encontrei meu nome (sus)surrado
no vão entre a cama e a parede
E varri montes de palavras perdidas encrustadas em cada quina.

Difícil foi esfregar as marcas do meu corpo,
as manchas na minha auto-estima
e colar os pedaços de confiança que você derrubou sem querer.

- Quase caí da janela ao limpar o vidro das lembranças! -

Torci panos e panos de destinos imaginados
que desceram imundos pelo ralo
(tive que deixá-los de molho: encardidos que estavam de desilusão)

Ao deitar na cama, porém, a saudade certeira
paira sobre mim feito poeira:
invisível, incessante e em movimento eterno e constante.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Engrenagens Urbanas

Os garçons servem, os garis varrem, os mendigos pedem, as putas dão.
Os motoristas transportam garçons, garis e putas (mendigos não!)
A polícia ronda.

Os garçons varrem, os motoristas servem, as putas pedem, os garis dão.
Os mendigos rondam.
A polícia transporta putas e mendigos (garis e garçons - se brancos - não!)

Os garçons pedem, os garis transportam, os mendigos varrem, os motoristas dão.
As putas rondam.
A polícia serve (a quem?)
A nós, não!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

formatar

Acordou prometendo escrever
mas tinha aula
Durante a aula prometeu escrever a tarde
mas tinha sono
E tinha também todas essas coisas engasgadas
que não sabia como tirar de dentro de si
(ou se queria tirá-las desse abrigo confortável)
Passou a tarde lendo
e prometendo a escrita pra noite
Precisava de “estofo” para a escrita
inspiração.
A noite chegou e prometeu que escreveria
se tivesse uma taça de vinho.
Era a rainha da procrastinação
Se escrevesse tão bem quanto procrastinava, estaria rica
Comprou vinho, comprou chocolate
Encheu seu estoque de tudo que poderia se tornar uma desculpa mais tarde
Sentou-se
Ligou o computador
A tela em branco
ajustou a fonte
o espaçamento
justificou seus medos
acendeu um incenso para espantar as inseguranças
tomou um gole de atitude

e se jogou nas suas próprias dúvidas.

quarta-feira, 23 de março de 2016

domingo

na rua vazia, os passos ecoam
e nem os fones de ouvido disfarçam
o som do que se passa em mim.

nem viv'alma no caminho
e, no entanto, passos no asfalto
me fazem perceber meu trajeto:
lenta e silenciosamente caminho pra dentro de mim.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ar

respirar
não o ar seco, impuro
inspirar ventos mais profundos
expirar com os poros, com o coro cabeludo
pirar com a sola do pé
e quando o pulmão parar de funcionar
respirar com o olhar, com a palma
aspirar ser pele, ser alma
pirar com desejo, com calma
espiral



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

MÁQUINA

na esteira, são todos iguais.
produzem cabeças
produzem memórias
todos iguais.
movimentos precisos.
precisam sobreviver.
o rosto não é um rosto.
o rosto é um rastro de graxa
o rosto é um resto de papel
o resto é um rosto de aço
o roto é um resto de gente
ratos
girando a roda da fortuna
que geme, que gira
a carne rota
a rota te espera
na esteira, mais um rosto
todos iguais.


(26/05/2015)